POESIAS - Boa Música

Perguntais-me como me tornei louco....

Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas - as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas - e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: "Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: "É um louco!" Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: "Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!"
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

Khalil Gibran

Na Bienal

"Que bicho é esse nhô pai
Que lá na roça não tem?
Será que é bicho da oropa?
Coisa esquisita! Oie bem!

Já preguntei pro Mocinho
Que tava espiando a listra
Dos nomes, ele me disse
Que só quem sabe é o artista


Só se nós fô preguntá
Pro home que toma conta,
Se é bicho ou é gente,
Qu'eu já tô ficano tonta!...


- Sabe o que mai? Bamo imbora
Sem preguntá mia fia
Com certeza iss'é retratoDe pessoa da família!"

ROMANCE DA LUA, LUA 

A lua chegou à forja
com sua anquinha de nardos.
O menino a mira, mira.
O menino está mirando-a.


Lá no espaço comovido
a lua move seus braços
e exibe, lúbrica e pura,
seus seios de duro estanho.


Foge lua, lua, lua.
Se chegassem os gitanos,
com teu coração fariam
anéis brancos e colares.
Menino, deixa que dance.
Quando os gitanos chegarem,
te acharão sobre a bigorna
com os olhinhos fechados.
Foge lu, lua, lua,
que já ouço seus cavalos.
Jovem, deixa-me, não pises
minha brancura engomada.O ginete se acercava
tocando o tambor do chão.
Dentro da forja o menino
conserva os olhos fechados.Vinham pelo oliveiral
os gitanos, bronze e sonho.
As cabeças levantadas
e os olhos semicerrados.Como canta ali o bufo,
ai, como canta na árvore.
Pelo céu a lua segue
com um menino na mão.Lá dentro da forja choram,
dando gritos, os gitanos.
O ar vela-a, vela, vela.
O ar a está velando.

Federico García Lorca   

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